Divórcio em plena quarentena


Por Karina Gols




Eu jurava de pés juntos que essa quarentena traria um novo baby boom. Os filhos do confinamento. Que revelaria o melhor das pessoas: a solidariedade, o amor ao próximo, a conciliação entre aqueles membros da família que se desarmonizaram por credos políticos, que as pessoas se uniriam, que teríamos mais tempo.


Que poderíamos ler aqueles livros que a gente sempre quis, organizaríamos nossos armários, prestaríamos mais atenção aos pequenos detalhes da vida. E, parafraseando Oscar Wilde, redescobriríamos que o importante é o acessório.


Eu mesma estava feliz da vida em poder passar mais tempo com “my little one” e meu marido. Lançamos o Quarentenas.com com grandes profissionais de comunicação e estávamos naquela empolgação colossal! Escrevi crônicas bem-humoradas como “Confissões de uma germofóbica em tempos de COVID-19”, “Amanhã” e “Leite faz bem à moça”.


Em um dos primeiros dias da minha quarentena, quando meu marido ainda estava trabalhando no escritório, brinquei de abraçar e contar até o papai chegar. Acho que foi um dos momentos mais importantes, prazerosos e significativos para mim nesses últimos tempos.


Sentir sua respiração pertinho de mim. Esse serzinho que eu tive o privilégio de colocar no mundo e que, sem dúvida alguma, é minha maior fonte de alegria na vida. Quanto amor! Bendita quarentena!


Mas eu me enganei. Feio. Já de cara, a violência doméstica aumentou de modo assustador. Estatísticas alarmantes. Eu, que sou sobrevivente desse horror, acabei me sentindo constrangida por ter sido tão ingênua. Mais uma vez.


Aos poucos, fomos descobrindo que a quarentena exacerbou não só o melhor, mas também o pior da humanidade. Aqueles conflitos familiares baseados nas divergências políticas se acirraram mais ainda. Brigas por papel higiênico em supermercados. E os pedidos de divórcio se agigantaram.


Hoje mesmo, de manhã, uma pessoa querida me passou uma mensagem pelo WhatsApp dizendo que o seu casamento, que já vinha capenga, terminou.


Choque. Eu passei por um divórcio e sei a barra que é. A sensação de retirarem o chão onde estamos tentando ficar de pé. E, quando escuto isso, uma certa parte de mim revive a exata sensação de estar se distanciando do que éramos, caminhando para um futuro incerto.


Talvez esse momento de reclusão tenha dado a coragem que faltava para quem se sentia infeliz e se viu confinado com um parceiro que não correspondia às expectativas mínimas, como o amor e o companheirismo.


De um certo modo, nos identificamos pelo nosso casamento. Faz parte de quem nos tornamos. Nossa personalidade, que foi perfilada pelo nosso cônjuge durante os anos, de um instante para o outro se converte em algo que apenas sabemos que é diferente.


Durante esse processo de separação de quem era nossa outra metade, descobrimos um “eu” remoto, que se alterou com os anos e se tornou uma incógnita a ser novamente decifrada. Nos surpreendemos com nossa condição. O antigo “eu”, que guardamos em fotos, reminiscências, narrativas próprias, reaparece. Se tínhamos um predicativo por sermos “esposa de sicrano”, voltamos ao mais puro e decantado "eu".


A palavra “divórcio” parece evocar uma tristeza, um vazio, mas, muitas vezes, é justamente o contrário. É a chance que damos ao nosso amor-próprio falar mais alto que as expectativas alheias.


Sinto um rombo no coração como senti nos primeiros dias gélidos em meu primeiro pequeno apartamento alugado em São Francisco, Califórnia, logo após o divórcio. Lembro da dificuldade de subir as ladeiras à pé, muitas vezes carregando compras de mercearias, ou, nas primeiras manhãs, segurando apenas um café em copos de isopor que, finalmente, esquentavam minhas mãos.


Mas, quando converso com essas mulheres recém-divorciadas, elas me transmitem uma calma, uma serenidade. Um “finalmente”, um “ufa”, uma gratidão pelo momento que estão vivendo. Uma redescoberta da nossa condição humana, de estarmos sozinhos, mas não na solidão. E fico contente por elas.


Então, o rombo no coração se fecha e algo o aquece, como os copos de isopor que eu agarrava quando ia subindo, sozinha, as ladeiras de São Francisco.


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* Karina Gols é profissional de Comunicação Internacional com mais de 25 anos de experiência, estudou Cinema & Televisão (Roteiro) na Universidade de Tel Aviv, e é poliglota. Foi articulista da Tribuna da Imprensa, trabalhou em gigantes como a Rede Globo, Edelman, Petrobras, Google (YouTube) e CNA - Confederação Nacional de Agricultura (assessoria de imprensa internacional pela The Information Company, nos EUA). Reside na Califórnia, Estados Unidos e redigiu posts para o blog da organização sem fins lucrativos Pacific Southwest Community Development Corporation. Gosta de ver o lado positivo das coisas, mantendo o bom humor. Mas tá dificil esses dias...



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